7.12.16

Canto final

Assim será. E se não for assim,
terá por certo algumas parecenças
com muitos dos que vão chegando ao fim,

agarrados ou não às suas crenças,
pois também com o eles partirás,
mais dia menos dia e, olhando bem,

se vires o fica para trás:
tanto sonho acordado; outros, além
de superarem o que não previas,

atingiram o nó do pesadelo
repleto de incontáveis aporias
e com reais espectros a tecê-lo,

como um raio fatal, de supetão,
ou o canto final
da solidão.

Domingos da Mota

[inédito]

5.12.16

exercício mental

     a partir do poema exercício espiritual, de Mário Cesariny


é preciso dizer trigo em vez de dizer joio
é preciso dizer farinha em vez de dizer farelo
é preciso dizer bicicleta em vez de dizer comboio
é preciso dizer cabeça em vez de dizer escalpelo

é preciso dizer outro em vez de dizer mesmo
é preciso dizer nome em vez de dizer número
é preciso dizer caminho em vez de dizer a esmo
é preciso dizer arguto em vez de dizer energúmeno

Domingos da Mota

[inédito]

4.12.16

THEREZA

Sem apelo
               no vórtice do
dia no
abandono do chão na
lâmina da
luz feroz


             fora da vida


desfaz-se agora
a minha doída
desavinda companheira

Ferreira Gullar

Obra Poética, Quasi Edições, Outubro 2003

3.12.16

NOITE

Do chão onde ontem enterrei
a noite irrompe como um garfo,
noite de hoje que eu não conheço
e todavia já 
noite velha que sei de cor.

Como um gesto premeditado,
nasce assim devagar,
tão nacional e tão leve,
tão primaveril pelas esquinas,
tão cheia de gatos nos telhados,
tão sem sono por ela adiante,
pequena noite habitual e casta
ligada ao dia por minúsculos grãos de café,
cores, vidros e frágeis cordões de fumo,
mas no entanto e sempre
tão principalmente noite.

José Manuel Simões

SOBRAS COMPLETAS, Prefácios de Helder Macedo e José de Sá Caetano, abysmo, Lisboa, Outubro 2016

1.12.16

[Um homem duplo cego]

Um homem duplo cego
aposta o limite. Um homem que se preze
presume uns degraus abaixo
do limiar de pobreza. Um homem
a ver gente vencida pelo silêncio,
a morrer aos bocados.
Um homem à beira
do fim.

Rui Baião

LADRADOR, Averno / 2012

30.11.16

MAL DE PÁTRIA

Se temos nove dez poetas
à escala europeia
ou só quatro ou mesmo  talvez
com muito boa vontade três

aflige-me bastante menos
que o problema do Serra:

quantas queijeiras restam
fiéis à rude bordaleira?
para onde vai Portugal?

                                                1985

Fernando Assis Pacheco

A MUSA IRREGULAR, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2006

28.11.16

a mesmíssima rua

a mesmíssima rua
a mesmíssima esquina
a velhíssima lua
a novíssima menina

a mesmíssima atmosfera
a mesmíssima aragem
a novíssima espera
a velhíssima abordagem

Domingos da Mota

[inédito]

27.11.16

fragmento primeiro

I


De que te vestes, corpo
a bando nado
da luz no teu país. De que te cobres?
Esquecido na água e sem
leitura. De que lado
passarás a viver
(ou, transigindo,
de que lado 
passarás a morrer, a clarear)?

Nuno Guimarães

OS CAMPOS VISUAIS, Iniciativas Editoriais, Lisboa, Maio de 1973

26.11.16

exercício espiritual

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

Mário Cesariny

CESARINY  UMA GRANDE RAZÃO, Assírio & Alvim, Lisboa, Março de 2007

24.11.16

A um ti que eu inventei

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesse partir.

António Gedeão

POEMAS ESCOLHIDOS, Antologia Organizada pelo Autor, Edições João Sá da Costa, Lisboa, Novembro de 1999

23.11.16

por entre os pingos da chuva/2

há quem tente passar, sem se molhar,
entre os pingos da chuva, sorrateiro:
se acaso a tentativa resultar,
bem que pode mostrar-se prazenteiro
no meio da borrasca, e gabar-se
de sol na eira e chuva no nabal,
e mesmo, que sei eu, vangloriar-se
debaixo do intenso temporal;
mas se for uma queda de granizo,
as pedras do tamanho dalguns ovos,
se quem tenta passar tiver juízo,
abriga-se, qual seja sob um toldo
até que a graúda saraivada
se transforme nuns pingos, e mais nada.

Domingos da Mota

[inédito]

22.11.16

motete sobre comentários

não te beijo o coração
(no coração não dou beijos)
e nem mesmo a tua mão
oscularei; nos ensejos

para beijar, beijarei
os teus lábios, o teu rosto
e onde quer que eu sei
que tu gostas e eu gosto.

imagina só abrires
o teu peito no bloco
operatório e fruíres
do meu beijo aí, in loco,

no coração: que diriam
desse beijo arriscado
o próprio cirurgião
e o anestesista ao lado?

Domingos da Mota

[inédito]

21.11.16

por entre os pingos da chuva

por entre os pingos da chuva, há quem tente
passar sem se molhar, e arriscar-se
a ficar encharcado, totalmente,
mormente quando ousa associar-se
a deus e ao diabo, feitos gente,
e cutucando a fúria dos contrários,
exiba o sorriso, astutamente --
a máscara ideal durante os vários
momentos de esquivar-se, porque sim,
ensejos de eximir-se, porque não,
alturas de manter-se assim-assim,
passando como se camaleão
no meio da borrasca: (enxuto?, plácido?),
por muito que os pingos sejam ácidos

Domingos da Mota

[inédito]