26.9.16

Entre gostos e desgostos

Gosto? Não gosto? Desgosto?
Se for coisa de mau gosto,
não gosto, melhor, desgosto,
pois não gosto, a contragosto;
e até gosto de gostar,
mesmo que não esteja a dar,
pois isso de estar a dar
brevemente há-de passar,
como passa qualquer moda,
e não sendo de modismos,
de truísmos, seguidismos,
não farejo atrás da coda
ou da cauda do rebanho,
e até gosto de redenho
e do sabor do pitéu.
Gosto? Não gosto? Não tenho
de gostar quando o amanho
se adensa como breu.

Domingos da Mota

[inédito]

24.9.16

IN MEMORIAM

                    ao meu Pai


Fosses vivo e terias

agora uns cento e cinco,
partiste há sessenta e dois,
tinha eu sete e como sinto
a falta que me fizeste,
mais do que pão para a boca,
o vazio que deixaste
neste caminho de pedras,
de falta de ar que sufoca
quem tem de subir a pulso
e dá com o nariz na porta,
uma e outra e outra vez
e quando a porta se abre,
numa fila aguarda a vez,
mas raramente lá cabe.
Partiste há sessenta e dois,
muitos anos de distância:
quantos mais virão depois,
minha douta ignorância?

Domingos da Mota


24 de Setembro de 2016


[inédito]


22.9.16

AO CONTRÁRIO DE ULISSES

Infeliz quem, ao contrário
de Ulisses, volte a casa
e nem sequer um cão, nem
um cão morto sequer, ladre.

Pedro Mexia

Menos por Menos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2011

21.9.16

O CÃO DE ULISSES

(glosa ou quase)


                                                                           a Lêdo Ivo,
in memoriam


Como pode um Poeta ser cego
(perguntava Lêdo Ivo)
se a Poesia é a arte de ver? Ele soube-o dormindo
ou acordado, e transpondo as pontes por Sevilha.
Árgus, o cão de Ulisses, confirmá-lo-ia
como fez com seu dono. Lêdo sabia-o.
E qualquer um dos seus vinte e dois cachorros
cuja privacidade sempre respeitou.
Como pode um Poeta ser cego
(perguntava Lêdo Ivo)
e Homero existido? Lêdo sabia-o. Como Borges
sempre soube, porém, não há notícia se o portenho
alguma vez teve cão. Por essa razão,
Lêdo escutou os latidos de todos os cachorros,
não fosse o caso de um (entre eles) ser o mito
-- O cão de Ulisses, o verdadeiro.

Ivo Machado

A CIDADE DESGOVERNADA, Insubmisso Rumor, Porto, Fevereiro de 2016

20.9.16

O CÃO DE POMPEIA

O cão que vi prostrado na ferrugem do pêlo eriçado,
Não era osso a fugir, calcinado.
Mordiam-lhe as pulgas e o flash, mas estava vivo.
(Pelo menos a respiração tumefaz-se empoeirada.)
O chão seco em que caia o seu repouso.
Nada se parecia com a lava.
<Este cão, a vida que continua em Pompeia, que sempre continua.>

José Emílio-Nelson

BELEZA TOCADA  OBRA POÉTICA  1979-2015, Abysmo, Lisboa, Setembro de 2016